Clínica da Melancolia

Pura Cancina

Parto da consideração de que concebo a clínica psicanalítica como o laço, a corda que ata a teoria psicanalítica da cura estando os psicanalistas convocados ali a dar suas razões em que o real de sua prática empurra e faz voltar a interrogar o que Freud e Lacan haviam escrito, ficções que abordam uma parte do real. Este esclarecimento antecipa que o desenvolvimento que prossegue se sustente de minha prática e que a reflexão exigida sobre a mesma tem feito necessária a interrogação não só da leitura de Freud e Lacan, mas também das ficções da clínica psiquiátrica que os precedeu e a qual ambos recorreram.

Em referência à paranóia e à parafrenia, Freud pretendeu uma certa diferenciação articulada a uma discussão terminológica (sobre todo o caso Schreber) que não podia deixar de lado a conceitualização que esta terminologia sustenta. Lacan retoma esta problemática levantando, desde a perspectiva da estrutura, a esse salto qualitativo cujas conseqüências afetam a direção da cura. Ao consolidar a explicação pelo constitutivo se articula um ponto de não retorno com relação à explicação pelo constitucional. Explicação dos clássicos da clínica psiquiátrica da qual Kraeplin é o mais notório. Sustentando a questão pelo lado da estrutura, são fatos de discurso os que permitem diferenciar neurose, perversão e psicose e avançar por vez no terreno da diferença do jogo entre paranóia e parafrenia.

A questão da melancolia, sem dúvida, tem sido em minha opinião, esporadicamente abordada sem algo de conclusivo, ainda sim, se podemos situar imediações fundamentais da aproximação a problemática que me proponho tratar. Situarei estas imediações desde o ponto de vista de minha própria elaboração.

No "Manuscrito G" (1894), Freud pretende dar conta do compromisso usual entre melancolia, anorexia e anestesia sexual e relaciona seu predomínio nas mulheres a fatores educativos. Creio que está aí indicada já uma figura do pai, uma ênfase que se não tem seu suporte na instância simbólica do ideal de eu, um mandato superegóico, instância moral e imperativo do gozo. Freud descreve as mulheres não preparadas para a "ação específica", assim ele se expressa, senão para a posição de objeto - passiva como o especificará mais adiante - provocar a "ação específica" no homem. A falta de especificação de seu desejo como genital se correlaciona com a exigência com que é colocada sua demanda de amor. Tem sido já aqui assinalado o predomínio desta afecção nas mulheres, e o sofrimento da melancolia é remetido a uma ferida aberta no psíquico, sendo esta formulação retomada em 1917. "Luto e melancolia" - como metáfora.

Antes do começo do século - 1894 - no "Manuscrito E", Freud já se perguntava acerca das correlações entre angústia e melancolia, revelando-se-lhe ao mesmo tempo o mecanismo de ambas: "acúmulo da tensão sexual física" para a angústia e "acúmulo da tensão sexual psíquica" para a melancolia. Este era o modo em que Freud se expressava. Então. Veremos entretanto como esta formulação conserva sua validez e é retomada e traduzida a partir de sua última teoria da angústia. Trata-se, disse Freud em 1894, tanto para a angústia como para o sofrimento melancólico, de uma permutação do afeto.

Se na primeira abordagem do problema a anestesia sexual e a correspondente dor psíquica aparecem como o produto de uma desconexão, veremos que toda sua elaboração posterior se encaminhará - pela via do luto - a explicar sua conexão. Proponho no momento o seguinte avanço com respeito a minha maneira de explicar certos fenômenos próprios a essa afecção usualmente denominada melancolia: anestesia, do grego "anaisthesia", significa "sem sentido". Efetivamente, nos encontramos com uma falta de sentido muitas vezes radical. Disso faz eco o clamor escrito de uma enferma "porque a vida mesma se pergunta por que seja só um sentido".

O sentido e efeito do simbólico e imaginário a-cordam. Produto da ressonância do significante no corpo, entre o simbolicamente imaginário e o imaginariamente simbólico, quando o duplo sentido fracassa só resta o peso de uma significação que ainda que seja a do amor não é menos sentido cristalizado, um sem sentido que é excesso do sentido. Captura do simbólico por um imaginário des-acordado, é possível operar sobre o imaginário. É neste tipo de desajuste entre sentido e significação que são legíveis os efeitos do des-acordamento entre simbólico e imaginário que quero pontuar.

Justamente, é o sentido perdido de um gozo marcado de transitoriedade, maldição do jovem Rilke, o que impulsiona essa reflexão de Freud que iniciada ao redor do tema do suicídio desemboca em "Luto e melancolia". O que Freud chega a diferenciar é o luto normal do luto patológico e a melancolia. O motivo dessa diferença é o objeto. A conservação do objeto na fantasia é o esclarecimento posterior que situa a distância entre qualquer patologia do luto e melancolia - maníaca. O luto é trabalho, tarefa a cumprir (trauerarbeit) e a melancolia, ferida que não cessa de não cicatrizar. Objeto sabido no luto, objeto ignorado na melancolia: objeto próprio a uma eleição narcisista, incorporado canibalisticamente, objeto engolido que fecha e engasga. Não cessar de não inscrever sua falta deixa abortado o objeto a-vir e o caminho da substituição por onde transita o desejo. A sombra do objeto cai sobre o eu ou então este é embaraçado alegria louca de um triunfo sem objeto. Pontuo: Questão de eu e imaginário. Corpo onde o objeto expulsado não pode ex-sistir como vazio no corpo e é por isso que se reitera o requisito de sua expulsão arrastando o eu na passagem ao ato suicida. Imaginário onde falta no corpo o buraco que o torifica.

Em 1924 Freud revisará as conclusões de "Luto e melancolia" com o instrumento da segunda tópica - esse eu obscurecido pelo objeto é o que sofre perseguição e hostilidade do supereu. Trata-se em "Neuroses e psicoses" de uma tentativa estrutural segundo o qual Freud propõe separar dentro do grupo das psicoses essas afecções que só lhe apresentam com um caráter diferencial e as denomina "psiconeuroses narcísicas". A melancolia é o paradigma do grupo. Anteriormente, em "Introdução ao simpósio sobre neuroses de guerra", já havia falado do "sistema de neuroses narcísicas", sistema em que se ordenara não só a melancolia, como também as neuroses traumáticas. Desde Lacan podíamos dizer que se há alí algo em comum, esta é a da vigência traumático. Traumatismo que não termina de se constituir em "troumetisme". A maldição coincide com a falta de invenção e artesanato.

Em 1924 a melancolia era explicada desde o conflito entre eu e supereu. O notável é que poucos meses depois, quando Freud escreve "Perda da realidade em neuroses e psicoses", a melancolia não é considerada e o supereu não consta no artigo. Havia sido definido o supereu como uma parte diferenciada do eu, representante da realidade e herdeiro com complexo de Édipo, se torna aqui necessário voltar a interrogar o que Freud havia dito desta vez em relação a sua segunda tópica.

Do ponto de vista sistemático da primeira, o que a segunda incorpora são instâncias. Proponho como terceira o nó-borromeu de Lacan com o que as tópicas freudianas podem ser retomadas e reinscritas. A primeira tópica freudiana implica na noção de dispositivos. Lugares de inscrição e modos de tramitação da pulsão. Leis de funcionamento que Freud nomeia; Processo primário e processo secundário. Em troca,, uma instância implica um instar. Peticionar, impugnar urgir em definitiva. Ação e efeito de instar por um lado, e por outro, jurisdições de onde algo se tramita. É necessário pontuar aqui que quando se fala de realidade nestes termos, realidade é o instar das exigências da vida e a realidade psíquica de Freud é o complexo de Édipo.

Só me deterei desde este ponto de vista e nas duas instâncias que em Freud permanecem confundidas: Supereu e Ideal de eu. A herança do complexo de Édipo é ao menos dupla:

Este duplo instar desdobra a herança: Supereu e Ideal de eu, instâncias diferenciadas e diferenciações repartidas entre o imaginário e o simbólico. Normalmente, neuroticamente atados, interessa a clínica de seus desatamentos. Desde o ideal regem essas marcas simbólicas que comemoram um gozo como perdido. Produto da introjeção simbólica do objeto sem efeito de renúncia. Traços com valor de letras, nomes próprios do Ideal de eu desde onde o sujeito pode ser visto como amável empresa egóica de amor - e ódio - mas não de desejo. Por outro lado, o supereu é instância imaginária; seu imperativo provém da incorporação do mandato moral e a proibição que é em última instância, proibição do incesto, porém sob a forma dos mandatos da palavra. Pela índole de sua composição é também obscuro imperativo de gozo que só o poder do simbólico pode fissionar furando-o. Lacan nos recorda que em seu imperativo íntimo o Supereu é a voz da consciência cujo principal traço é ser vocal. Sua obscura autoridade consiste em ressoar com força. A isto acrescentemos que o corpo é o lugar privilegiado para sua ressonância, ressonância que afeta o corpo em seus furos, já que ao sensibilizá-los traça uma zona de borda desde onde a pulsão traça seu circuito. Este caráter de lugar de ressonância e perfutamento que tem o corpo em relação à instância superegóica é o que mantém a assertiva de que sua consistência é teórica e que imaginário, real e simbólico enodados mediante um quarto nó - instância nominante - constitui esse furo que Lacan chama furo verdadeiro.

O supereu realmente imaginário, consiste, em grande parte, em representações pré-conscientes.Constituindo-se a partir daquilo que do real articula a demanda do Outro, o Supereu é outro modo de introduzir para o ser falante a lei da palavra, lei a articular e diferenciar com respeito as leis da linguagem. Sua recusa tem como efeito esse desatamento que especifica uma série de transtornos onde a melancolia é paradigma. A partir da minha clínica encontro que é possível e orientador a partir da perspectiva da direção da cura, contar ali também a mania, certas formas de mania como contar e alcoolismos que proponho chamar toxicomanias, as anorexias e as bulimias nas histéricas.

Esta lei que no seminário VII Lacan denominara mandatos da palavra, vem atuar no espaço especular da identificação com o semelhante, espaço especular que se pensamos em um imaginário perfurado, temos que pensar como espaço próprio o campo escópico. Os mandatos da palavra situam como essa mediação necessária à relação imaginária: presença de um terceiro termo que introduzido à realidade mortal condiciona os prestígios do narcisismo. No seio do imaginário esse terceiro termo cumpre uma função nominante. A indicação de Lacan ao seminário X sobre o objeto próprio à melancolia-maníaca, objeto não desprendido da imagem narcísica que o sujeito busca furar atirando-se a si mesmo na passagem ao ato suicida, permite situar a vigência do traumático neste objeto (Objeto incorporado canibalisticamente de Abraham) a partir da falta de distância entre o eu e o outro do par narcísico próprio à constituição especular do Eu. Lugar de intervenção dos mandatos da palavra cujo efeito é a inscrição da significação fálica que no imaginário escreve - . É a lei da palavra a que produz um resultado afastado à identificação narcísica, já que de outro modo esta, disse Lacan em "variantes da cura tipo" "... coloca o sujeito em uma beatitude sem medida, mais oferecido que nunca a essa figura obscena e feroz que se chama Supereu e que é necessário compreender como a hiância aberta no imaginário por toda recusa dos mandatos da palavra."

Essa observação de Lacan é a que me orientou em relação ao encontrado em minha prática, a partir da qual proponho que mania-melancolia são efeitos, dentre outros, do desatamento próprio à não ação por questionamento ou recusa da intervenção de um pai real, pai desautorizado, maldito, cuja falta de eficácia tolera a recusa dos mandatos da palavra como instância, instância interveniente no tempo de processamento da significação fálica no que haveria de inscrever-se - a nível do imaginário para que o eu constituído como buraco do corpo, sua consistência teórica eficaz para seu enodamento diante de uma perda no real, qualquer que seja, os caminhos do luto normal ficam impossibilitados e se entra no tempo congelado de um luto sem destino alternado às vezes pela excitação de uma alegria louca cuja onipotência não tem objeto. A via da substituição permanece travada já que o objeto do qual se trata não termina de metaforizar-se.

Havendo dado então aos mandatos da palavra o caráter de instância, para melhor situar os efeitos de sua recusa, interessa determo-nos ali onde Lacan desenvolve sua argumentação em relação aos mesmos no Seminário VII. "Commandement de la parole", mandatos ou mandamentos em palavras e da palavra. Um modo de nomeação está em jogo, onde se trata de um duplo mandato: a palavra é a que manda e o mandato é a palavra. "Este é o tempo do dizer, esta é minha pátria", escreve Rilke, indicando o nível onde se rege a distância entre o bem-dizer criador e o mal-dizer doente do melancólico ou o fluxo ineficaz de palavras do maníaco: letania, gemido, mutismo, verborragia, todas as perversões do dizer.

O termo usado por Lacan é "parole" e não "mot", o que nos orienta a pensar que se trata da palavra falada que não requer ser dita em voz alta ainda que tenha sido primeiramente grito. Trata-se também do que permite diferenciar o falar do fazer uso da palavra, o calar-se do guardar silêncio, o dar e tomar a palavra. Está em jogo também a dialética da demanda e a falência estrutural que situo é impedimento à passagem pela conjuntura onde está posta em jogo a demanda articulada, o objeto se constitui em resto de movimento substitutivo. Seu efeito é a impossibilidade do corte do objeto em i(a) e a substituição por um significante. Se em lugar do objeto incorporado há introjeção de um significante, este se constitui em traço unário do ideal de eu e esta substituição implica numa troca de registro e uma troca de desejo: há uma transferência de desejo possibilitada pela passagem pela privação. Em relação ao desejo, a privação exige a articulação da demanda. A privação pode por-se em jogo e adquirir eficácia para o sujeito só quando este puder simbolizar aquilo de que havia sido privado. Recordemos a esse respeito a identidade da situação entre luto e privação: falta real. Isto nos permite pensar que se trata na patologia do luto da simbolização do objeto que falta no real. Sendo o agente da privação o pai imaginário, se entende então a falta que faz a intervenção de um pai real, ali onde todo o movimento ameaça estancar-se sem encontrar a saída da castração: falta simbólica de um objeto imaginário. Intervenção de um pai que com sua palavra ratifique o movimento da substituição mantendo a crença na instância da palavra. No curso da cura esta intervenção de um pai, deverá cumpri-la o analista com sua palavra.

Retomemos aqui uma observação de Lacan no seminário V onde fala da possibilidade de uma recusa da demanda que se havia dirigido ao pai, no que a marca da inadmissiilidade diz: "O que está interdito recusa o sujeito a algo onde já não encontra nada para significar-se. isto é o que procura, estreitamente falando seu caráter doloroso e pelo mesmo que chegado o caso, o eu pode encontrar-se, por exemplo, nessa posição de recusa (rejet) por parte do ideal de eu e é pelo que se estabelece estreitamente falando, o estado melancólico". Se a privação nas meninas se efetiva em relação à demanda de um filho dirigida ao pai, a troca de pênis que deste modo se encaminha nas vias da simbolização, é em relação a este momento conjuntural que pode entender-se à predominância tantas vezes consignada da melancolia nas mulheres.

A lei fundamental e fundante da ordem da cultura é a proibição do incesto. Esta lei, não a encontramos em nenhum lugar enunciada não faz parte dos códigos nem do decálogo. Corte e exclusão da coisa (das Ding), desenha o umbigo a partir do qual as diferentes qualidades e inscrições do objeto (sachvorstellung, wortvorstellung) constituíram a rede que não cessa de não escrever a coisa. Com respeito a esse corte fundante chamado proibição do incesto, temos que articular esta instância dos mandatos da palavra. A lei da proibição do incesto mantém a relação inconsciente com das Ding, essa busca sem reencontro com aquilo que se busca. Os mandatos da palavra são sua confirmação a nível do discurso efetivo a nível da lei positiva. Trata-se da lei que o homem pode alcançar e reconhecer a nível pré-consciente e consciente. Os dez mandamentos, formando parte do direito positivo, sendo todos negativos, revelam assim sua positividade. Tornam explícito o que a nível a proibição do incesto permanece implícito. Explicitam aquilo sem o qual já não haveria possibilidade da palavra. Proponho: Os mandatos da palavra atualizando um Supereu enodado ao simbólico, são correlacionáveis à instância freudiana da censura como o que desde o pré-consciente mantém reprimido o inconsciente. Em troca, a recusa dirigida à demanda do sujeito adquire o caráter de uma recusa absoluta que alcança não só a demanda como também o sujeito que a sustêm. Lança o sujeito ao estado de dejeto sem nada que venha a significá-lo e essa recusa alcança ainda à palavra como mandato. O movimento de demanda permanece desautorizado para o sujeito como permanece desautorizada essa cara do pai que é o pai doador, impedimento elevado a integração de suas insígnias já que não há autentificação das mesmas ao não haver-se ratificada a simbolização do objeto - Não haverá então nenhuma providência nem espera confiada se perde a confiança na palavra. Sem isto se perde perigosamente isso que mantém à distância o buraco da coisa, o que dá essa vigência do traumático para estes enfermos, questão várias vezes já observada por Freud. Se eterniza o luto pelo pai imaginário, agente da privação, pai imaginário do que é necessário recordar seu desdobramento: imagem de potência se faz preferir pela mãe sustentando promessa por um lado; por outro lado o pai privador, aquele a que se reprova haver feito tão mal as coisas.

Na declinação do édipo o urvatter mítico, figura do pai real, se esconde detrás do pai imaginário, aquele que está presente porque é alguém - A passagem pela privação inaugura o luto por esse pai, pai contra o que se formula a reprovação perpétua incorporada à estrutura do sujeito. Pai de amor e de ódio, por um lado estrutura a ordem da fé no pai e, por outro, incorpora o supereu (...) do ódio para o pai. Disse Lacan: " E a função do supereu em última análise, em sua perspectiva última, é ódio de Deus, censura a Deus por haver feito tão mal todas as coisas". A recusa dos mandatos da palavra implica num obstáculo elevado ao luto pelo pai. Nos encontramos assim ante a carência de um ideal verdadeiramente autenticado pelos efeitos da significação fálica, a desautorização da instância da palavra que faz obstáculo à dialética da demanda, obstáculo elevado ao achado do bem dizer criador como possível e, no plano do imaginário, há retorno da cara obscena e feroz do supereu por desatamento como lugar de escritura do ideal.

O objeto perdido no real, objeto de luto, convoca ao trabalho do simbólico. Lacan comparou o luto com a psicose mostrando a reversão em jogo: perda no real elaborada com todo o simbólico, revela a falta do significante instituinte. A psicose em troca, revela uma falta do simbólico que retorna no real. O objeto de luto está configurado ao modo de um "objek vorstellung" (Freud, "As afasias"): é um objeto complexo onde se conjugam "sach vorstellung" e "wortvorstellung", pré-consciente - consciente e inconsciente. O objeto de luto, se sabe, é um duplo registro. Em troca do objeto da melancolia, como Freud observava, dele, o sujeito, nada sabe. Proponho que se trate de um objeto que por permanecer não nomeado a nível de sua passagem pelo sistema das "wortvorstellung", falha com respeito a esse objeto cobertura imaginária necessária ao objeto a. Permanece no inconsciente em uma perigosíssima proximidade à coisa. O grito é a única marca que o qualifica.

Antes de concluir me interessa assinalar algo que, me parece, indicava uma diferença radical entre a alucinação psicótica e as alucinações destes enfermos. Remeti-me à descrição que Seglas fazia. As por ele denominadas "alucinações motrizes verbais" me serviu de utilidade mas não no ponto precisamente, que ele acentua. Descubro assim que, com respeito à voz que ordena mutilar-se ou matar-se - não são as vozes incessantes do alucinando verbal - o enfermo, como os enfermos de Seglas, encontra meios de proteção: "Adminísculos" para tapar os ouvidos. Esta descoberta, correlacionada com o fato de que a voz desaparece quando uma mão - em tranferência - é posta sobre o ouvido no qual se vocifera ou sussurra, permitiu-me pensar que estes recursos não só eram encontrados no Outro, mas também que se tratava de um gozo no Outro ao que se podia barrar. Nestes casos é imprescindível que o analista possa intervir não só no simbólico, mas também no imaginário e no real. Trata-se de situar atos que inscrevem bordas e que demarcam o gozo. Pela particularidade do objeto em jogo, o objeto não cortado a nível de i(a), as construções demonstraram ter um lugar privilegiado na direção da cura. Montagem da cena onde, de fazer intervir ali os mandatos da palavra - restando consistência à ferocidade do outro - propiciam que um objeto alce a essa cena articulando-se em fantasma. Por outra parte pude comprovar que, como já dizia Lacan, o analista tem-se encarregado do suporte de fazer-se algo que nem o analisante nem o analista tem a menor idéia de que objeto é. Poder sustentá-lo será propiciatório que nesse cara-a-cara, sustentando um bom dia, possamos ouvir como durante esse tempo ia desenhando-se no outro imaginário da identificação especular um lugar onde - se escreve. Algo "menos" que reúne na diferença. Assim um dia pude escutar isto. "Hoje estamos vestidas iguais, as mesmas cores. A mesma blusa, a mesma saia. Tudo igual, menos os sapatos. Tentei dizer com isto que o tipo de falência estrutural a qual tentei dar conta, convoca, na cura, a um trabalho que se demonstra ser constitutivo, diferente da restitutiva da psicose.

Notas:

(1)"Troumetisme" - Termo que Lacan utilizou em seu seminário de 19-2-74, dizendo: "Alí onde não há relação sexual, isso produz Troumetisme. Um inventa. Um inventa o que pode por suposto". " Troumetisme" é uma condensação de "trou" - buraco- e "traumatisme"- traumatismo. volver

(2) Recordemos o lugar que Lacan outorga as representações pré-conscientes nessa inscrição das tópicas freudianas em seu nó-borromeu "n'A terceira". volver

(3) O sublinhado é meu. volver

Fuente: Revista Veredas. Año 1 N° 0. 1993

Gerardo Herreros http://www.herreros.com.ar